Limites


Genésia é uma senhorinha, Dona Genésia. Dona de oitenta e tantos anos, e não há nada em sua aparência que a distinga das demais senhorinhas: cabelos brancos, rugas, óculos de grau para longe e para perto, roupas de avó.
Seu diferencial era odiar os filhos, todos eles: a primogênita, os gêmeos, o seguinte, a próxima e o caçula; detestava os beijos frouxos que lhe davam, os abraços que não deixavam marca na blusa.
Não tinha dúvidas de que era querida pelos filhos, não era questão de amor e carinho; era uma ansiedade, uma necessidade do intenso. Seria mulher de abraços robustos, não fossem os braços finamente frágeis. E como odiava os retratos em família, pareciam telas de pintura do século XVIII, todos bem compostos, um dos filhos sempre pousava de leve a mão sobre a sua, o que a irritava, mas não mais do que pôr as mãos sobre seus ombros. 
Sempre fora conhecida por sua delicadeza, na juventude a pele clara, os olhos cor de mel, os cabelos castanhos claros e o gênio dócil lhe conferiram o apelido de delicadeza.
Na época gostara da alcunha dada. Aliás, por um dos muitos pretendentes.
Exercera o máximo da fragilidade feminina: em casa, quando posta para mexer o tacho de doces, sempre conseguia rápida substituição. Usava luvas. Crê em alguém usando luvas no interior quente de Minas? Pois usava. Certo é que na época todas as mocinhas de romances usavam, mas na realidade só ela ousava.
Gostava de caminhar com a sombrinha cor-de-rosa pelas estradinhas de terra; cumprimentando vizinhos, ouvindo gracejos respeitosos dos admiradores, de ganhar frutos retirados do pé, fresquinhos. Quando ia aos bailes deslizava no salão, parecia bailarina, quanta leveza! A vida era intensa nas delicadezas de ser vivida. 
Agora era avó de alguns netos, todos crescidos, que poucas vezes a visitavam. Um tanto quanto melhor: odiava eles também, mais polidos do que os pais, onde já se viu?!
Ninguém mais a chamava de delicadeza. O encanto da palavra passara de descrição de sua aparência e personalidade a definição de sua condição; as gentilezas substituídas pelo tratamento obrigatório que se deve a uma mulher de oitenta e muitos anos. 
Um dia surgiu Luca, um mocinho dono de apenas cinco anos, olhos pretos e grandes, cabelos crespos bagunçados, pele negra. Era filho de Maria, senhorita de seus vinte cinco anos, nova namorada de um dos netos insossos, era ela mesmo uma insípida, quando apresentada a dona Genésia não despertara querência, tocara lhe de leve, o beijo no rosto mal se encostou à pele envelhecida. 
A moça não era quista pela família, já tinha filho, onde já se viu? E que moleque capeta, viu o pulo que deu na vó, quase a desmonta! 
- Ah que precioso! - suspirava Dona Genésia, sem ouvir os blá blá blás dos filhos.

Comentários

  1. Pobre vozinha que perdeu a delicadeza de viver a sua própria vida.

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  2. Lembro da comida da minha vó... não era boa!

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